Por: José Jacó Moreira dos Santos
Nos primeiros dias glaciais de julho nasceu Jurema. Era pequena e languida, caberia quase inteira na mão do pai se o protesto do povo não o tivesse levado a ponta pés e injúrias. Tonhão era um mulato grande e ossudo. Na vila havia deixado a lembrança de sua virilidade incomum e as muitas dívidas nos bares e prostíbulos circunvizinhos. A mãe, brotinho, criança provocante, dezesseis anos de lívida inocência, era uma adolescente de gênio transparente, cujo corpo esquálido cheio de curvas refletia uma beleza que parecia mentira. Permaneceu virgem até o dia em que o mulato Tonhão aparecera em sua porta impregnado de odores e exibindo peito de penugem crespa. Resistiu como pôde as investiduras do malandro, recorreu a orações, proferiu gritos e impropérios que atiçaram a curiosidade da vizinhança. O plano havia sido calculado com precisão cirúrgica e executado quando os pais da jovem estavam enforcando pragas na roça. Mulato Tonhão depois de conjurar todas as artimanhas inventadas pelo homem, de entreter a menina com doces e histórias para boi dormir, agarrou-a como um lobo faminto e a depenou das vestes como um passarinho.
Jurema Matungo foi fruto deste pecado carnal. A mãe recorreu a todas as artes mágicas de monges barbudos que escrevinhavam em cadernetas ou as consultavam para curar a moléstia do espírito. O objetivo de expulsar o feto de seu ventre era uma empresa confabulada para lavar a honra da família e arrebatar o perdão do pai. O fracasso foi iminente.
No dia do nascimento, um aguaceiro bíblico despencou e trovoadas rolaram furiosas agitando janelas e espantando animais. O mundo está desabando, dizia a avó, Esta criança é filha do demônio, apregoava a mãe em suor e lamúria, Vejam se tem cascos de cavalo, replicava a avó, É um milagre, pois está viva e chorando, assinalou a parteira, Será puta como a mãe se tiver saúde, concluiu o avô. De todos os prognósticos e constatações ditados naquele dia, nenhum pareceu menos absurdo do que as palavras da parteira. De fato um milagre ou intervenção demoníaca havia selado o destino de Jurema.
A parteira juntou algum sal na cozinha de taquara e moldou uma cruz no canto do fogão de modo a espantar a tempestade. Revirou a casa numa busca inútil de encontrar um demônio do lar e fez um passeio minucioso sob a pele plácida da mãe para encontrar feridas delituosas. Depois de chamuscar a erva da palha emporcalhada e tragar algumas vezes, sentenciou com voz imperiosa que o nascimento havia sido um milagre e a menina ficaria sob seus cuidados até segunda ordem.
A comunidade recebeu com alarde a nova vivente cujo tamanho do corpo era paupérrimo. Todos repetiam e aumentavam as falácias mágicas da família e creditavam o acontecimento como um projeto do demônio de arrebatar mais fiéis sob instrumento da parteira. Certa noite uma comitiva de oito homens armados a pau e pedra incorreu pelas araucárias com intento de atear fogo à casa da curandeira. Encontraram-na pela varanda tragando desta vez um cachimbo. Vestia uns trapos anacrônicos, sujos e encardidos de mucosidades de mulheres e rebentos. A cabeleira branca e solta desconhecia água e lembrava muito um ninho de sabiá.
Um dos homens, o de nariz acanalado declarou hesitante, Deixe a criança e a casa e vá para o diabo que te carregue bruxa. A mulher tragou o cachimbo e os seus olhos diáfanos refletiram uma paz perturbadora. Antes de me perder nesse fim de mundo, disse em meio à fumaraça, Fui puta rameira dos cabarés da capital. Muitos homens por mim perderam o juízo e o pinto. Então se não me deixarem em paz rogarei uma praga tão obstinada que mulher alguma conseguirá animá-los. Palavras foram ditas e um choro de criança infestou o ar espantando para sempre os homens que fugiam desordenados em busca do calor de suas camas.
O povoado ralo dividiu-se em conjeturas equivocadas acerca da parteira. Uns acreditavam que era de boa índole, pois havia administrado com precisão o nascimento da maioria dos rebentos do povoado; outros acreditavam que era um lobo em pele de cordeiro e que tinha dado início a sua maquinaria infernal naquela tarde remota do nascimento da Jurema em práticas satânicas, sacrifícios de animais e fumarada. O fato é que desde essa tarde remota, nenhum ser humano se atrevera jamais a procurar novamente os conselhos ou serviços da curandeira.
Quatorze anos, cinco meses e dezesseis dias se passaram desde o dia em que os oito pais de família regressaram da floresta de araucária derrotados pelos trejeitos infernais da bruxa. O Corisco era um povoado simples, pequeno e habitado por peões acaboclados que prestavam serviços aos patrões da região. Estes divisavam com seus peões um ralo campo de pastagens, alguma roça aqui, uma floresta de araucária acolá, adiante um rio mal assombrado e por fim a estrada dos tropeiros. O povoado era composto por trinta e quatro casas de madeira e barro, uma igreja cujo padre narrava as peripécias de cristo em latim e catequizava bugres.
Numa localidade circunvizinha que muitos anos depois seria chamada Santa Maria morava um casal de agricultores vindo do outro lado do atlântico. No dia doze do mês de novembro, numa manhã de estiada, Anton saíra para buscar sua irmã de quinze anos. Anette costumava acordar furtivamente pela madrugada ainda noturna para esfregar sua infâmia pela geada dos campos e diminuir o fogo das entranhas. Não havendo geada pela preeminência das chuvas acidentalmente ficou plantada no lamaçal da estrada. Os bugres saltaram das extremidades tentaculares da mata e colheram o broto que ali estava por nascer. Mais tarde, Anton haveria de encontrar o vestido e as ceroulas que restaram da irmã que fora ter com os bugres.
O povo havia esquecido a filha do pecado de outrora e agora tinham os olhos voltados para o mau humor do tempo. Comumente um raio qualquer despencava serpenteando o céu, atiçando aves, torrando vacas, maltratando árvores ou seres humanos.
Dias temerosos se passaram desde o desaparecimento da jovem Anette. A família simples rezava para os céus pedindo que lograsse a filha dos aproveitadores de criancinhas, dos cafetões e outras feras da natureza. Mas dessa vez era inevitável o destino arrebatador de Jurema Matungo. O povo associou logicamente, como dois e dois são quatro, e três vezes dois são seis que a velha parteira, mãe postiça de Jurema Matungo, era a seqüestradora de Anette.
Novamente, depois de quase quinze anos passados, uma nova comitiva foi elaborada desta vez por Anton com intuito único de sangrar a bruxa das araucárias e resgatar sua irmã perdida. Na quarta hora da manhã iniciaram os preparativos. Ao nascer do sol lançaram polenta e carne numa chapa chamuscada com uma mistura duvidosa de temperos e comeram com violência. O povoado emprestara a Anton seus melhores homens. Quatro caçadores sendo um do Goullart conhecido como “Pirulá”. Este era seco de carne, porte de gladiador, madrugador e amigo da caça. Diziam as línguas soltas que havia enfrentado um gritador que o havia deixado sua marca na orelha direita decepada. Os outros três não tinham feitos dignos de notas.
O povo despediu-se como se ali nascesse uma nova cruzada. Lançaram fogos no céu com fúria e obrigaram o padre a proferir alguns vocábulos em latim. Algumas assanhadas sorriram e finalmente a comitiva penetrou num caminho invisível da floresta de araucária. Anton seguiu na frente abrindo picada com determinação seguido por Pirulá e os outros. O caminho estava totalmente fechado por pragas, tarântulas e cobras peçonhentas. No meio da escuridão e umidade da floresta sentiram um odor terrível que ficava mais intenso quando avançavam.
Diante da velha tapera cada homem sentiu que o coração lhe arrebentaria o peito quando notaram o cadáver decrépito da parteira sentada numa cadeira de balanço na solitária varanda aos pedaços. O silêncio imperou até o instante em que dois bugres emergiram das janelas aos gritos. Estavam nus e suas vergonhas dançavam alegremente pelo movimento frenético dos quadris. Pirulá ameaçou segui-los, mas Anton o desencorajou. Temos outros negócios, assinalou, Revirem a casa enquanto eu procuro nas redondezas.
Uns poucos passos adiante do casebre Anton chegou a um riacho e consumou o destino que o havia inculcado: uma jovem de cabelos dourados, ombros retos e corpo cheio de curvas que refletiam uma beleza perturbadora. Banhava-se no riacho e vestia uns panos transparentes que a deixavam ainda mais nua. Ao notar que seu corpo era policiado por olhos de cão faminto emergiu da água e seguiu em direção à vítima. Deixe-me em paz, declarou chegando tão perto que era possível sentir seu hálito virginal. Não posso, murmurou Anton como pôde. Fui puta rameira dos cabarés da capital. Muitos homens por mim perderam o juízo e o pinto. Então se não me deixar em paz rogarei uma praga tão obstinada que mulher alguma conseguirá animá-lo. Não ligo, replicou, vim pela minha irmã roubada. Sentia que o tempo havia parado, os sentidos falhavam, mentiam, aplicavam peças faziam-no um homenzinho de fraudas, indefeso. Jurema cerrou os olhos e lançou-lhe um olhar perverso que o deixou em estado crepuscular. Nós colhemos o que plantamos, a sua irmãzinha esfregou tanto o bicho d’água na terra que acabou numa orgia de bugres mata à dentro. E você está aqui, diante da filha postiça da parteira rejeitada. Anton sentiu o coração acelerar tanto que era possível ver os pássaros se debatendo no ar, cervos pulando espavoridos, o vento frio cortando o ar, e se viu gritando, pedindo socorro aos amigos, chorando como um bebê, e viu sua amada sendo levada aos gritos como um animal que hesita a jaula, um pobre diabo que teme a cruz, e viu sua irmã saciando a fome voraz dos bugres cujas vergonhas balançavam alegremente, e viu seu pai furioso preparando um estrado de madeira, viu todas as pessoas do mundo com tochas na mão, viu sua amada Jurema Matungo definhando no estrado em chamas lamuriando e uivando de dor, invocando seus demônios com suas vozes de terror, de alegria, de safadeza, de sofrimento, de satisfação, e viu as araucárias sendo derrubadas como peças de dominós por caranguejos cujas entranhas haviam homens, viu um dragão de ferro gigante que andava por uma linha num barulho e fumaraça infernal, e viu o povo sofrendo, lutando, viu homens santos e homens embusteiros e viu a escolha que haveria de selar o destino de Jurema para sempre.
Ela permaneceu a mesma, quase transparente em curvas realçadas pelos trapos que vestia. Por fim mediu-o, acariciou-lhe o peito de penugem crespa, agarrou-o como um lobo faminto e o depenou das vestes como um passarinho.


Muito Legal *o*
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