José Jacó Moreira dos Santos.
I
O guarda está postado diante do alto portão da casa real. É meio dia. O mundo parece silencioso para sempre em sua monotonia. Algumas crianças sujas esfregam-se numa brincadeira incerta. O guarda imóvel aprendera outrora com o seu superior, aquele canalha e espancador de mulheres, que um defensor deve zelar para além do poder de seu cansaço e jamais distrair-se. Aprendera, sobretudo que o limite das regras está no dever ser, na ordem. Transgredir as normas, no entanto, é uma prática que se faz desde o surgimento das primeiras convenções, e Sedovém muito bem o sabe.
O sol arde. Mulheres perambulam pela calçada de pedras, todas desavisadas. Há uma bracatinga feito banquinho às escondidas, cerrada em forma de toco bem acanalado com ferramenta de muita prática nos marasmos das sestas. Entretanto, senhoras e senhores, aquela tarde jamais seria como as outras dadas ao esquecimento. Nosso guardinha puxa o banco furtivamente com sua mão troglodita. Senta-se e ninguém o vê. Ninguém nessas terras de Portugal, ditas como de brasis, ou de além mar, ou de inferno tropical, observa guardas.
Ele recobra a consciência dum cochilo graças ao distante ruído de patas de cavalo. Sente pela avidez dos ouvidos um galopear preguiçoso pela estrada empoeirada. A poeira vem a toda força, traz consigo um cavalo e um homem, um sobre o outro. Sedovém, “o guarda”, olha como pode, a poeira machuca seus olhos, ofusca, vê um centauro tal como na descrição da professora Catarina em estudos sobre gregos, aquela mesma que o ensinou a ler e a escrever e que poderia tê-lo logrado do triste destino de ser um pobre-diabo-guarda, não fossem as fornicações do rapazinho com os animais aos arredores da escolinha.
Voltemos ao visitante. Estava fardado e não era um centauro, tinha boa aparência, era magro, as sobrancelhas eram encontradas, o rosto chupado e Sedovém o bem conhecia apesar do elmo: Era um dragão real. Sempre que a Sedovém era proporcionado um encontro desses, o corpo lhe provava que não tinha bons intestinos pois a qualquer desavença já estava a arriar as calças. O encontro facial o deixara ainda mais ansioso. Fazia-se de postura reta embora seus olhos negros revelassem a maior insegurança e insatisfação em receber este cavaleiro.
Deixe-me passar homem, ordenou o dragão, Deixe-me levar a muito mais nova do que boa notícia a dona Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon, soberana e rainha dos reinos além mar de Portugal e Algarves, a mãe do louco que está do outro lado do bosque, lá donde se deita um rio de nome confuso, a gritar independência ou morte, estampilhando um destino de muito mais mortes que de independências, Ora, disse o anfitrião, bem sabes que não podes brincar assim com os nomes de nossa monarquia que nada querem com essa terra menos bela do que as de Portugal, quentes como o inferno, tristes como os índios que atiram flechas e tatus sobre nossas cabeças e tentam nos expulsar com impropérios pagãos. O homem do cavalo retirou o elmo que lhe cobria uns cabelos muito sujos e encaracolados, daqueles que chacoalham como molinhas sobre a cabeça, dos que muito lembram os raios de Apolo, senhor do sol. Dirigiu-se com arrogância ao soldadinho diminuído feito um cão que balanga o rabo, falou-lhe sem rodeios, Saia da minha frente e deixe-me passar antes que a vida miserável que lhe inspira lho seja rechaçada pela imponência de minha espada. Palavras não ditas e Sedovém logo desculpou-se. Tentou algumas justificativas mas o homem o ignorou. Seguiu adiante após apear e entregar as rédeas a Sedovém que incorreu portão adentro para acomodar o cavalo.
Demoraram-se nas conversas, dragão e rainha, tanto que Sedovém pôde refletir muito. Sentado em seu banquinho maculado pelas estrias das limas lembrou-se da professora Catarina. Lembrou-se dos dias remotos em que se masturbava as escondidas remetendo todo seu amor a professora, que de curvas muito pouco tinha, mas o porte de gladiador do corpo, os seios acabaçados e as coxas fartas lhe davam boa vantagem sensual. Lembrou-se, sobretudo do dia em que fora encontrado pela musa trancafiado na despensa da escolinha, banhado num suor misturado ao arroz dos sacos furados, todo desacordado, sofrido pela sufocação, perdido e pensando nela. Foi expulso e para lá nunca mais retornou.
Posto novamente ao banquinho chorou as mágoas do passado, pediu aos céus que lhe dessem uma utilidade nessa vida, pediu que o destino lhe pregasse uma peça. Perdido no labirinto de seus pensamentos viu emergir do portão um escravo pequenino, barrigudo de olhos fundos que lhe informou com timidez um recado vindo de dentro da alcova real. Arrumou-se como pôde, deu de mão numa vareta que havia ao lado e ameaçou o menino que sumiu espavorido entre a poeira do terreiro.
Porta adentro viu a alcova real que jamais vira e jamais veria novamente. Um salão vasto, ornado de quadros dinásticos delatores dum absolutismo conhecido por Sedovém. Bem no centro havia uma mulher sentada numa cadeira elegante. Uma mulher quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas de bexiga ainda faziam mais áspera, o nariz avermelhado. Era pequena quase anã claudicante. Uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados. Era Carlota Joaquina.
O dragão arrogante estava de pé diante das circunstancias. Recusou-se a sentar em sinal de respeito e sequer olhou Sedovém quando este surgiu atônito por entre a sala. Enquanto o cheiro de suor substituía os odores de perfumes e incensos, Carlota Joaquina tratou logo de adiantar o caso. Com um lencinho velando as narinas, levantou-se da cadeira de outrora, seja para acalmar o formigamento das pernas, seja pela formalidade do ato, estendeu a mão para que Sedovém a beijasse.
É trágico, caro leitor, mas se o intento de narrar essas anedotas deve ser consumado, é necessário, sobretudo, que se fale dos detalhes até mesmo daqueles mais constrangedores. O guarda de joelhos diante da anã claudicante tem os intestinos fervescentes, derrama um suor febril e lhe vem à vontade (força do hábito?) de arriar as calças e encontrar a paz. Não há tempo, nunca há. A tarde do sete de setembro se vai esgotando e o guarda precisa obedecer. E assim, por hora, o faz.
Através das cortinas transparentes da alcova real, a Megera de Queluz observa o sol alumiando o gramado do bem cuidado jardim cercado por muretas de ipomeas e o céu ímpio encetado por algumas nuvens esparsas. E assim, turvada pelas safadezas do filho, magoada e sofrida pelas conspirantes notícias, sente o calafrio que haverá de atormentá-la pelo longo período de exílio nalgum palácio qualquer.
Sedovém está para lá adiante, alheio ao mundo que o cerca, arrumando selas e escovando os animais para que sejam dignos de emprestar seus lombos às vorazes coxas reais. Num instante qualquer surge novamente o escravo pequenino, barrigudo de olhos fundos que o cerca de olhares travessos. Entre as vistas insignes dos cavalos põe-se novamente a refletir.
A História deslembrou os detalhes da restante vida de Sedovém, o que sabemos, entretanto, é que naquele mesmo instante singular em que fora mira dos olhos pasmados da megera deu-se conta do imenso poder de que dispunha. Atracou-se numa fracassada tentativa de espantar cavalos, seguido do escravinho que ainda o olhava sem ciúme, e puseram-se a cavalgar rapidamente, não o menino, pois este sentindo o perigo tornou-se invisível entre as árvores do desmedido jardim real, mas cavalos e cavaleiro, na tentativa vã e tênue de impedir a fuga de Dona Carlota Joaquina para o velho mundo.
Da ruela que trespassava o jardim real, senhoritas e bajuladores puderam ver e ouvir o tiro desferido contra Sedovém. O dragão estava ainda a arrumar-se quando notou a algazarra dos cachorros e a batucada das patas dos cavalos que delataram o seu engenhoso plano. Nem mesmo a desmesurada constelação de cavalos que cercara Sedovém pôde lográ-lo do triste destino de morrer como conspirador.



