CURTA: “GUERRA NA FILOSOFIA”
José Jacó Moreira dos Santos.
CENA I
DATASHOW:
“O sono da razão produz monstros”.
(A razão está dormindo ao lado da liberdade após um banquete. Durante o sono da razão, surgem os monstros ‘ignorância’ e ‘fanatismo’. Ambos os monstros ameaçam destruir a liberdade que num vislumbre do sono percebe o plano dos inimigos. A liberdade acorda totalmente e toma em suas mãos o cetro da razão e dispara raios que desmoralizam e derrotam as monstruosidades do sono da razão).
CENA II
DATASHOW:
TEXTO:
“Numa galáxia de idéias não muito distante...”
“GUERRA NA FILOSOFIA”
GUERRA! Nas entranhas do imaginário humano do século XVIII, a Liberdade vence uma árdua batalha contra a Ignorância e o Fanatismo. O resultado dessa batalha interfere diretamente nas relações humanas, pois o poder que outrora era exercido de maneira infundada pela vontade de um único homem agora haverá de ser exercido pelo Soberano.
Numa universidade qualquer, dois filósofos, Hobbes e Nietszche estão destinados a encontrar-se para travar uma batalha que definirá o destino da humanidade...
CENA III.
INÍCIO
O mestre Thomas Hobbes solicitou uma audiência com a deusa Justiça após um ataque sorrateiro contra a Liberdade. Esse ardil confabulado pela Ignorância e Fanatismo abalou a comunidade científica, bem como a segurança dos valores considerados até agora como verdades absolutas.
THOMAS: Saudações ó venerável Justiça, deusa do equilíbrio, da força e da cegueira.
JUSTIÇA: Saudações! Espero que tenhas um bom motivo para invocar-me, haja vista que não tenho andado muito acessível aos homens ultimamente.
THOMAS: Perdão, entretanto o assunto que me faz refletir acerca da integridade de vós, deusas das verdades, não é de pouca monta.
JUSTIÇA: Duvidar de nossa integridade? Ora, diga logo então, meu jovem!
THOMAS: É fato que há algum tempo, a eminente deusa Liberdade sofreu um ataque duplo e inesperado de dois malefícios surgidos das profundezas da selvageria humana.
JUSTIÇA: Ora, e quem seriam estes corvos errantes?
THOMAS: A Ignorância e o Fanatismo.
(As Deusas expressam pânico e cochicham).
JUSTIÇA: Silêeeencio! (Justiça bate a espada no chão). Bom, parece-me que o assunto realmente requer nossa atenção. Diga-me, qual é nossa real situação!
THOMAS: Temo que a circunstância possa se agravar ainda mais. No século XVIII, período em que esses derradeiros empenharam o ataque, a Liberdade ainda estava forte, Corada! descansava ao lado da poderosa razão.
JUSTIÇA: Sim, sim, no entanto o que descreve os relatos que li é que razão estava a dormir e sequer levantou-se do leito para lutar.
THOMAS: Porém, vossa magnificência há de concordar que foi graças ao luminoso cetro da razão que a Liberdade venceu a batalha e saiu ilesa.
JUSTIÇA: Ah sim... o CETRO DA RAZÂO! E onde está essa arma agora?
THOMAS: Neste momento o cetro da razão foi renegado pelos filósofos.
JUSTIÇA: Mas isso é um ultraje! E quem são esses ignorantes que ousam negar a razão?
THOMAS: Por enquanto apenas um, mas muitos virão se não tomarmos providências... Chamam-no de...
NIETZSCHE: FRIEDRICH NIETZSCHE!
(As Deusas entram novamente em pânico e cochicham).
PARTE 1
“O Contratualismo”
THOMAS: Não acredito que teve audácia de adentrar a casa das verdades, tu! Cético como és.
NIETZSCHE: Não vim aqui pelas pompas, não quero que tais verdades me adulem... vou varrer da face da terra essas crenças inúteis em verdades absolutas de sentidos vazios!
THOMAS: Não enquanto eu ainda estiver aqui para detê-lo!!!!
(Os dois iniciam uma luta com espadas, depois se distanciam).
NIETZSCHE: O conhecimento é grande em você, jovem filósofo mas não usa a seu favor!
THOMAS: Jamais me unirei a suas teorias perversas.
NIETZSCHE: Para quê você luta? Pela humanidade? O homem não terá salvação enquanto ainda estiver debaixo das asas da razão... O benefício do homem não é ser um fim e sim um meio. O homem é uma corda estendida entre o macaco e o super homem... perigosa travessia, arriscado tremer e parar...
THOMAS: Ora, não me faça rir. Os problemas da humanidade são perfeitamente neutralizados com o meu contrato social...
NIETZSCHE: Ah o seu contrato social... fale-me sobre ele.
THOMAS: O contrato social que vindico é justificado pela natureza sombria do homem. Neste contrato social todos os homens entregam sua liberdade ao soberano para que assim deixe o homem de ser o lobo de si mesmo.
NIETZSCHE: É triste como desperdiça inteligência com algo tão vil. Por trás de um acordo entre homens sempre há a vontade de poder e sempre faz a vontade daquele que engendra.
THOMAS: Mesmo que haja a vontade de poder entre os homens, ainda que alguns sejam mais fortes ou mais inteligentes do que outros, nenhum se ergue tão acima dos demais.
NIETZSCHE: Sim... exatamente assim que deve ser... cada um de nós tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma constante guerra de todos contra todos! Vence o mais forte, pois nem tudo é para todos. Se o for, é comum.
HOBBES: Nããããoo! (nova luta, Hobbes ataca, pausa). Os homens têm um desejo, que é também em interesse próprio, de acabar com o estado de guerra, e por isso formam as sociedades entrando num contrato social com o objetivo de atingir a igualdade e Justiça.
NIETZSCHE: Hahahaha... Tolo! Justiça nada tem a ver com imparcialidades, sendo nada mais que a imposição de vontades. Esse contrato social que tanto defendes não passa de um ato de violência, tão logo se detenha o poder para tal!
HOBBES: Mentira! Cada um de nós coloca sua pessoa e sua potência sob a direção suprema da vontade geral, da vontade do Soberano! (Hobbes ataca, pausa).
NIETZSCHE: O soberano é uma farsa! A origem do Estado não é uma convenção. O estado traz sua origem terrível sendo uma criação da violência e da conquista.
HOBBES: O Contrato Social propõe um estado ideal, justo e libertário, resultante de consenso e que garanta os direitos de todos os cidadãos.
NIETZSCHE: O poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância, usurpação e violência. Desista dessa batalha vã e una-se ao meu pensamento. Venha para o lado niilista da filosofia!
HOBBES: Nãããão!!!! (Hobbes ataca e mudam o cenário).
PARTE 2
“Niilismo, a negação”
NIETZSCHE: Você repudia o niilismo porque desconhece o verdadeiro sentido dessa filosofia, deixe-me mostrar-te!
HOBBES: Se eu desconheço o que é niilismo, diga-me você, que é então?
NIETZSCHE: Para você que ainda desconhece a noção, ersinar-lhe-ei primeiramente o que é niilismo passivo. Trata-se da negação de todos os valores.
HOBBES: Ah sim, então uma transvaloração de valores, algo como substituição de certos valores para outros.
NIETZSCHE: Não!!! Absolutamente não. O niilismo não espera recompensas pois isso é um desperdício da força vital em algo vão. De início, devemos nos opor aos preceitos socráticos e principalmente a moral cristã.
HOBBES: Mas o que propões é um absurdo! (novo ataque).
NIETZSCHE: Verás logo que tenho razão. Com o niilismo não se promove a criação de qualquer tipo de valor, já que ela é considerada uma atitude negativa.
HOBBES: Bem, já que falou em niilismo passivo, criando essas suas denominações, parece que existem outras nomenclaturas...
NIETZSCHE: E há! Existe tambem o niilismo ativo, esse é o completo e puro. Entretanto o único niilista ativo que existe sou eu...
HOBBES: Ora seu presunçoso! (ataque).
NIETZSCHE: Graças ao meu niilismo aguçado pude constatar as verdade acerca do Estado. Este, que tu chamas soberano, não passa de um cão hipócrita que agrada-lhe falar fumegando e uivando, para fazer crer, como tu, que fala saindo das entranhas das coisas.
HOBBES: E esta não é a verdade? Poderia o homem viver sem a convenção, sem moral, sem Deus, sem liberdade?
NIETZSCHE: deus está morto! E a liberdade parece ser o grito predileto desse cão de fogo chamado Estado. Mas como pode haver liberdade, como pode haver ausência de servidão, de submissão ou determinação se os entregam sua liberdade a este leviatã, a este soberano que não passa de uma fantasia.
HOBBES: Como podes dizer tamanho absurdo! És um lunático!
(Hobbes ataca Nietzsche ferozmente e é mortalmente ferido e cai para aguardar o golpe de misericórdia).
(Deitado). HOBBES: E o que o homem é para tu, ó nilista perfeito? Um nada? Um saco de ossos e carnes que fica ali a espera do inevitável?
NIETZSCHE: Não! O fim não está na negação dos valores pois no momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores. No instante em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno: sem isto, o niilismo será sempre um ciclo incompleto...
(Música do eterno retorno)
PARTE 3.
“O exílio dos paradigmas”.
JUSTIÇA: Senti um grande distúrbio no conhecimento. Parece que o terrível Nietzsche venceu. O contratualismo está morrendo e nós, deuses e deusas da verdade morreremos também.
RAZÃO: Devemos sair desse lugar e recorrer ao exílio, fomos derrotados.
LIBERDADE: O que virá agora após a nossa derrocada? É o fim de modernidade.... Será um período sombrio de pós-modernidade...
(Todas as verdades saem do grande salão).
PARTE 4
“Uma nova esperança”.
(Nietzsche chega na sala em busca das verdades a fim de exterminá-las. Não mais nada. Depois de uma reflexão tira a roupa de Darth Vader e remexe os livros na mesa. A câmera focaliza vários alunos na sala de aula e Nietzsche inicia uma aula de filosofia sugerindo a reflexão a seguintes frases:)
“Só sei que nada sei” e “ O mais corajoso dos homens nem sempre tem a coragem de afirmar aquilo que sabe de certeza...”









