A ORIGEM.
...soa um casal de batidas preguiçosas...
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a pequena nuvem que sobrevoa as terras do deus supremo, vive um Mulungu. Dizem que alimenta seu corpo através de folhas das árvores maiores e alguns pedaços de nuvens de chuva. Sentia-se exitado toda vez que Zorhuã, o ancião do segundo céu, mandava-lhe separar as tempestades pouco antes do por do sol. Não é um trabalho fácil, mas para um mulungu como Trohã, que fora discípulo do ancião do quinto céu das nuvens negruminas, é uma atividade de apenas três horas. Cumpre-nos dizer que o Jovem Trohã escondia um grupo de alegrias dentro de si. Ao invés de enviar alguns sopros para separar a multidão duma vez, detinha-se brincando de cometa. Talhava as extremidades das nuvens tempestuosas separando-as lentamente. Devido ao seu exótico hábito de trabalhar, conquistou fama entre os seres do espaço. Excitava-se, sobretudo, quando coletava matinalmente lágrimas de Grúdnos.
Os Grúdnos são demônios ferozes, assassinam qualquer vida que lhe apareça à frente. Costumam chorar enquanto dormem por dez dias seguidos, embora seu sono seja fragilíssimo. Dizem os mais velhos que os Grudnos choram em seu sono todas as mortes que causam durante sua vigília. Uma coleta equivale a uma pesca, para nós humanos, pois o esforço paciente é o mesmo. Depois de coletada, cada lágrima é cozida e misturada ao pó do caroço de huã, fruta típica das planícies do reino subterrâneo de Frunã, que fica abaixo do primeiro céu. Hectorã, um mulungu com traços Falakianos, engarrafa o licor que Trohã produz todo meio-dia. Quando não está em tempo de coletar lágrimas, os dois Mulungus perdem-se pelas ruas de Fridna vendendo seu produto. Os feiticeiros anciões chamam aquele mundo de Horioulus que significa “um mundo sobre outro” na língua Falakia, idioma universal dos nove céus. Ninguém faz a mínima idéia do motivo deste nome, pois não lhes interessa saber. Em Fridna, um dos nove reinos que compõe Hourioulus encontramos Trohã e Hectorã. É um lugar pacífico, poucos demônios se aventuraram invadi-lo e as tempestades são facilmente dominadas pelos mulungus mais inferiores. Nove anciões provincianos são responsáveis pela “articulação harmoniosa” de Fridna e também pela sua inclusão na “articulação suprema” do planeta Horioulus. A Cidade possui grande iluminação a noite e várias luminárias de raios constantes clareiam as nuvens, há casas espalhadas por todo lado e bem no centro, vê-se uma agigantada nuvem amarela cujo interior realizam os rituais de fortificação contra Grudnos e discussões acerca de novas formas de articular as relações aqui e acolá. É aí que se escondem os anciões feiticeiros.
Na primeira metade do quinto solstício, surgiu em Fridna um mulungu chamado Alveriãh, bastante sábio e politizado. Fez alguns discursos e aconselhou os anciões feiticeiros a aderirem uma nova perspectiva de articulação. Não desempenhava papel nenhum, em cidade alguma, por isso encontrou problemas com as sentinelas da cidade, mulungus restauradores da “ordem da articulação suprema”. Os habitantes de Fridna sabiam da dívida de Alveriãh com as autoridades, mas não sentiam desejo de entregar-lhe a justiça. Olhavam aquele mulungu, de ombros caídos, barbas enroladas e vôo ofegante, mas percebiam que quando discursava enchia seu espírito duma hercúlea vivacidade educada. Deixaram-no ficar na cidade, com a condição de que se pusesse a dormir sob vigília de dois mulungus de confiança. Solãh, o ancião do vôo, decidiu arbitrariamente que Trohã e Hectorã acolheriam e tomariam conta do velho sábio e ensina-lhe-riam as artes de temperar um bom licor de Huã.
A escuridão já havia engolido Fridna, e as tempestades mais arredias já perdiam a força e entregavam-se a mão possessa dos mulungus, que embora exaustos emanavam enorme poder. Hectorã ouviu um casal de batidas preguiçosas que se dissipavam no espaço solitário da oficina dos pequenos fabricantes. A porta gemeu, e o velho Alveriãh cruzou oficina adentro com um ofício seguro a mão. Hectorã certamente lhe queimaria as fuças, se não percebesse a autoridade daquele pedaço de papel posto a mão do velho invasor. “Diga-me o que faz em minha oficina, velho!” disse o fabricante “Não vê que já não há mais licor de huã?”. “Não vim pelo licor jovem mulungu, embora aceite uma dose se me conceder”. “Fui indiciado a permanecer nesta oficina sob tutelo de dois Mulungus que aqui vivem”. Hectorã mandou o velho entregar-lhe o ofício e se pôs a ler a luz de algumas luminárias que ainda clareavam o lugar. Mandou o velho sentar-se sob uma cadeira saltitante para que descansasse e lhe trouxe alguma bebida. A conversa entreteu por algumas horas até que Trohã finalmente chegou, cansado de tantas tempestades separadas.[1] O velho sorriu.
A lenda da ceresta.
Foram questões de dias até que Trohã e Alveriãh tornassem amigos confiados. As conversas fruíam como se fosse uma afeição serpenteada por anos. A amizade pela ilusão de amizade. Demasiadas noites foram aquelas em que conversaram sobre tudo, as aves, o licor, as articulações, e até sobre Grudnos.
Certa feita o jovem Trohã aproveitou o estoque de licor que sobrara das últimas receitas e propôs um brinde com o conquistado amigo sobre as nuvens nas extremidades da cidade. Uma vista total. Nomeavam exaustivamente os ofuscados reinos inferiores abaixo de seus pés. Foi que Alveriãh resolveu contar uma antiga lenda Grudniana para o amigo.
“Diz, a velha lenda que os Grudnos eram seres realmente fantásticos com um sistema de harmonia magistral, exemplo para qualquer povo que se dispusesse a copiá-los. Cada ser que compunha o conjunto emanava de si certa força individual[2]. No centro do território gruniano, havia uma caverna chamada de “ceresta”. Consistia, esta caverna em legitimar o grande controlador do poder amarelo. O controlador é a ponte que liga o conjunto grudniano a criação. As flores, o bosque, as aves, o rio e até a treva eram produto da vontade do conjunto grudniano. No entanto, esse controlador conjurava poderes e perigos, certezas e enganos, vida e morte. Os anciões grudnianos, por precaução, absorveram toda a treva para dentro da ceresta, onde, num compartimento secreto, repousa copiosamente. Certa manhã, um grudno bastante promissor resolveu tornar-se o novo controlador. Ganhou a confiança de seu conjunto rapidamente, entretanto o alertaram de jamais adentrar a sala secreta. Foi que por pura vontade, ou cegueira da razão empenhou-se a enfrentar a ceresta numa batalha quixotesca. Sofreu em silêncio por todas provas investidas pela ceresta até que duas portas deram luz aos seus olhos. Uma o levava de volta para Falakia[3] e a outra até a sala dos perigos. O jovem Grudno, sem a certeza que sua pretensão seria alcançada, sem pestanejar, cruzou a porta dos perigos...”
Trohã, profundamente curioso para ouvir o amigo, ordenou-lhe que prosseguisse a crônica. Alveriãh, nada respondia. Fitava concentradamente movimentos no horizonte de uma nuvem. Era Hectorãh que surgia entre a escuridão, profundamente irritado. “Eu ouvi a conversa, velho subversivo! disse o recém chegado”. “Eu já o alertei para não encher nossas cabeças com essas lorotas? A regra fridniana é clara ao dizer que não devemos relatar a história proibida, portanto vejo que transgrediu nosso preceito sagrado!”. Trohã viu-se no direito de vindicar o amigo velho, e pediu ao irmão que considerasse suas acusações. Nunca, nessa nova geração de mulungus, havia sido tocado na lenda proibida. Era justificada a curiosidade de Trohã que iminente e decisiva construía fagulhas de hostilidade para com o seu irmão. O velho sorria.
O artefato
Hectorã ainda conjurava fragrâncias e sabores em suas garrafas de licor quando viu surgir um arco-íres magistral cortando a cidade de Fridna. Dava ênfase ao amarelo significando somente uma coisa: ameaça a “articulação harmoniosa”. Transtornado, e totalmente invadido por um sentimento de culpa(?) abriu a porta da oficina e testemunhou o caos. Havia sentinelas por todas as partes, interrogando e imobilizando os mulungus. Sitiaram toda a cidade com uma temível tempestade cujas nuvens se faziam transparentes, tão diáfanas quanto o espelho de um lago, não fosse, é claro, pelo brilho dum sol escaldante que lhes castigavam os olhos.
Uma das Sentinelas incorreu pelos domínios da oficina e, com um ofício seguro a mão perguntou se ele conhecia algum Trohã. Prontamente respondeu que eram irmãos. A sentinela ordenou, então que a acompanhasse. A ordem se fez áspera e decisiva. Hectorãh hesitou. Um raio cobrejou entre os dedos da sentinela e, para Hectorãh, tudo pareceu silencioso para sempre.
O ardente mulungu finalmente voltava a si quando se deparou com uma cena realmente incrível. Quis saber onde estava. Calaram-no. Questionou novamente. Pelos dedos duma sentinela próxima, viu nascer outro raio. Prudentemente calou-se.
Era uma sala enorme e acolhia uma platéia silenciosa e atenta. No centro havia somente Hectorãh totalmente rendido e policiado por uma sentinela bastante eficaz. Sentiu-se impotente. À sua frente, um amplo altar se estendia longínquo, decorado e equipado com nove poltronas. O número lhe respondia todas as perguntas possíveis. Permaneceu alguns instantes perdido em seus pensamentos até que uma voz muito familiar estabeleceu contato. Era Zorhuãh, o soberano do segundo céu, aquele estendido sobre o reino dos antigos homens de areia. O ancião prontamente perguntou ao interrogado onde se encontrava o paradeiro do irmão fugitivo. Hectorãh, no entanto, se fez desorientado, pois não via o irmão já há algumas horas. O soberano, vendo sinceridade nos olhos do separador de tempestades, tratou de explicar-lhe o que estava realmente acontecendo.
A notícia fez Hectorãh sentir um frio na espinha que, se não fosse um mulungu diria que era um frio puramente humano: Trohã havia roubado a túnica sagrada. A platéia agitou-se. Houve contestação. Foi que uma grande porta à esquerda de hectorãh soou um gemido anunciando a entrada de alguém familiar; era Alveriãh totalmente rendido por três sentinelas. Eram dois prisioneiros, oito anciões, porém nove poltronas. Eis o mistério. Zoruãh sorriu.
[1] Creio que o fato de dois mulungus morarem sob o mesmo teto tenha causado certo espanto ao leitor, mas cumpre-me dizer que os mulungus são seres assexuados e não possuem gênero algum.
[2] O poder de todos os integrantes da sociedade grudniana era conjurado e manipulado pelo “controlador”, que criava todas as coisas do mundo.
[3] Nome do antigo reino grudniano.

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